A quem serve (ou a
quem continua a servir) o MRPP?
Acabado de regressar de Moçambique voltei a integrar a
equipa de ténis de mesa do Sporting Clube de Alenquer. Tinha passado um ano,
estava tudo igual, colegas de equipa, treinadores… O tema das conversas é que
tinha mudado e muito. Agora só se falava de política. Com o meu regresso a Alenquer,
depressa me identifiquei com o PCP. Em boa verdade não foi uma escolha
ponderada, amadurecida, mas antes uma opção influenciada por muitas e boas
razões de natureza familiar e, de entre elas, o facto do meu avô materno ser
comunista.
Nos treinos e nas viagens para os jogos, o tema tinha
deixado de ser a eterna, e na altura saudável, rivalidade entre sportinguistas
e benfiquistas, mas a simpatia partidária de cada um.
Que eu me lembre, comunista era só eu… Um outro colega de
equipa estaria perto, mas não se manifestava. O treinador, operário
especializado da TAP, era do PS e um colega da equipa, um pouco mais velho que
eu, era do MRPP… Mais tarde cruzámo-nos várias vezes em Vila Franca, ele aluno
do Liceu e eu da Escola Industrial.
O treinador passava o tempo a desancar no PCP e a tentar
convencer-me de que o MRPP é que era… Isso na altura fez-me alguma confusão.
Podia tentar demover-me da minha simpatia pelo PCP e aliciar-me para o PS, mas
não, optava sempre por me tentar conduzir para o MRPP…
Em Vila Franca, na Escola, eles eram alguns mas muito
activos e alegadamente bem preparados politicamente. Davam nas vistas pelo seu
activismo e pelo discurso impregnado de citações e frases feitas. Mas tinham um
comportamento esquisito… Por exemplo, na minha escola tudo fizeram para impedir
que ali se comemorasse a independência de Angola… e no 11 de Março, estávamos
nós a almoçar na cantina da escola, entre um camarada da UEC e sobe para cima
de uma cadeira e diz: Está a haver um golpe de estado! Vamos todos para a
autoestrada para impedir o golpe! Eu e os mues camaradas da UEC fomos… Os do
MRPP, tiraram o emblema da lapela e desapareceram…
A minha professora de história, mais tarde presa, ela e o
marido pelo COPCON na sede daquele partido em Vila Franca, não gostou nada do
meu trabalho sobre a Revolução de Outubro. Na apresentação do trabalho fui
fustigado com um interrogatório interminável. No final, aconselhou-me a leitura
do livro “A revolução (bolchevique) de Outubro de 1917 na Rússia (Editora Vento
de Leste…). Convencida que me dava a volta, encheu-me o saco com acusações ao
PCP, o Cunhal isto, o Cunhal aquilo... Uns dias mais tarde trouxe o tal livro
para me vender e eu, para ver se ela me largava, comprei! Essa Professora, tal
como muitos outros, seguiu as pisadas do Durão Barroso… e regressou á “casa de
partida”.
De novo em Alenquer
Coleccionar cromos da bola tinha deixado de ser coisa com
interesse. O que estava a dar era colecionar cartazes e autocolantes. Foi por
essa razão que eu o meu grupo do PCP do Bairro do Areal (noutra altura
falaremos dele…) resolvemos ir à sede do PS. O objectivo era pedir autocolantes
e cartazes para a colecção. Acontece que o senhor que lá estava conhecia-me bem
entre outras razões, pelo facto de estar ligado à secção de ténis de mesa do
Sporting de Alenquer. Primeiro desconfiou das nossas intenções e procurou
perceber que nos tinha mandado lá… Depois, já esclarecido sobre a veracidade
dos nossos propósitos, lá nos ofereceu algum material para a colecção. Mas a
coisa não se ficou por ali. À semelhança do meu treinador, tentou convencer-me
que que o PCP não era coisa boa, mas se queria ser comunista, ao menos que
fosse do MRPP!
A todos eles estou agradecido por terem contribuído para que
a minha simpatia se transformasse em convicção. Se os comunistas eram assim tão
maus, porquê que os “maus” não gostavam deles, os combatiam muitas vezes de
forma violenta e entretanto, poupavam os “outros comunistas” do MRPP que,
afinal seriam os bons?
Porquê que os fascistas atacavam incendiavam e destruíam as
sedes do PCP e as do MRPP ficavam intactas?
Porquê que os militantes do PCP eram perseguidos e os do
MRPP eram poupados e acarinhados?
Do papel deste grupelho no processo revolucionário muito se
sabe hoje. O percurso de muitos deles tornou ainda mais evidente a sua natureza
e objectivos.
Hoje o MRPP não existe. Não existe mas aparece no boletim de
voto! E desta vez em primeiro!
A sua missão ainda está longe de ter terminado!
OctávioPontoAugusto
Abril 2019


Olá Octávio, não sabia que tinhas um blog. Gostei muito deste teu texto! A ver se vejo mais vezes o teu bog.
ResponderEliminarBeijo, bom feriado e bom fim-de-semana!
Joana Isabel Piorro