Cuidado!
Há um comunista
dentro da adega!
No final do ano lectivo de 1977 decidi abandonar os estudos
e ir trabalhar.
Lá me casa ninguém simpatizou com a ideia mas, aceitaram.
Sempre assim foi, mesmo nas decisões mais complicadas que tomei, podiam não concordar,
mas aceitavam.
O meu avô, o Zé Tanganho, como era conhecido em Alenquer (na
verdade chamava-se José Rodrigues Caseiro, mas toda a gente o conhecia pela
alcunha. O Zé Tanganho terá sido um famoso e veloz ciclista e, como o meu avô
sempre teve o hábito de caminhar muito depressa, ficou-lhe a alcunha)
percebendo que a minha decisão era irreversível, fez alguns contactos para me
arranjar emprego. Havia um muito bom numa empresa de equipamentos para aviários
que iria alargar as suas instalações mas ainda iria demorar algum tempo.
Resolveu contactar um amigo com uma empresa de instalações eléctricas no Bairro
de Paredes, em Alenquer. A admissão foi imediata.
Tratava-se de uma pequena empresa que, para além do patrão,
tinha mais dois empregados, um deles sobrinho do patrão. Dedicava-se a
instalações eléctricas em habitações e manutenção de instalações fabris. Dava
ainda assistência a uma Adega Cooperativa (a Adega Cooperativa da Labrugeira,
concelho de Alenquer) que na altura era detentora de equipamentos inovadores
para a produção de vinho.
Aproximou-se a época da vindima e a Adega mantinha-se em
actividade 24 horas por dia…
Era exigida a presença de um Electricista em permanência. Eu
como era ainda manifestamente pouco experiente (esta coisa de se tirar um curso
de electricidade ajuda muito sem dúvida, mas a prática… a prática conta muito e
não apenas na profissão de Electricista…) só fazia permanência na manutenção
durante o dia (apesar do conceito de “dia” ser demasiado elástico para o
patrão, especialmente quando se tratava de pagar).
Como é de supor, quando não havia nenhuma avaria, não havia
nada para fazer…
Primeiro problema: o
empregado do Sr. Manuel anda aí sem fazer nada!
Um certo dia o patrão disse-me que não podia andar pela
adega sem fazer nada. Respondi que não tinha nada que fazer… ao que ele me
respondeu dizendo que aquela gente não percebia isso. Das duas uma. Ou
“inventava” algo para fazer, como por exemplo desenroscar, limpar e enroscar um
interruptor, para não estar parado ou… fechar-me dentro da cabina de alta
tensão… Aprendi com ele que dava menos nas vistas de andasse sempre com u busca
polos e uma alicate na mão ou no bolso mas de forma visível… Confirmo que dava
resultado!
Muitas das vezes optava por me reservar dentro da cabine
onde dormia uma belas cestas. Esta é uma informação em primeira mão…
Um dia, ia eu a passar perto dos lagares e ouço: “Octávio!
Octávio!”. Virei-me para perceber de onde me estavam a chamar. Avaria, pensei
eu. Lá se vai a hora de almoço… Olhei par a janela dos serviços administrativos
e verifiquei que era dali que me chamavam. Aproximei-me mais um pouco e, quando
estou relativamente perto… Da janela do primeiro andar a tal voz gritou: “É
este… é este o comuna!”. Fiquei meio atordoado. Logo percebi a razão da coisa.
Vários agricultores dirigiram-se a mim em tom ameaçador a mandarem-me para
Rússia, gatuno e outras coisas mais… Virei-lhes as costas e a coisa ficou por
ali. Pensava eu… Nos dias seguintes a notícia propalou-se e era ver aquela
gente a pontar o dedo e a dizer é aquele, é aquele…
Mas o pior estava para vir…
Como era habitual, na hora de almoço ia tomar café a um dos
poucos cafés existentes na Labrugeira. Naquele dia fui tomar café com o meu
colega, o tal que era sobrinho do patrão e que era tão anticomunista como o
tio. O tio porque tinha vindo de Angola e, para além de boçal era racista até á
quinta casa. O sobrinho era anticomunista porque … sim.
No café, onde durante vários dias resisti a provocações de
todo o tipo, ignorando-as, entra um sujeito que se tinha destacado no assalto
ao CT do PCP na freguesia de Olhalvo. Ao bater com os olhos em mim, não se
conteve e, mais uma vez desferiu uma rajada de provocações de nível idêntico ao
dele. Fiz de conta que não era nada comigo. O homem desta vez não resistiu e,
agarrando-me pelo braço dispara: “Olha lá ó rapazinho é verdade que o Fernando
Farinha ganha seis contos e quinhentos do Partido Comunista?” (convém dizer
para quem não saiba que o Fernando Farinha a que ele se referia era um
conhecido fadista e militante comunista)
O medo provoca em mim uma reacção de efeito contrário
(noutra ocasião que relatarei em brave, aconteceu-me o mesmo. Foi em Vila
Verdes dos Francos, na minha estreia como orador numa sessão de
esclarecimento…). Levanto-me e respondo ao sujeito: “Fernando Farinha? Não
conheço. É sócio da Adega?”
O fulano não resistiu e agarrou-me pelos colarinhos. Se não
fosse o meu colega tinha levado uma valente tareia. Mas eu em vez de me calar
ainda lhe disse que um dia ele ainda se havia de haver comigo… o que viria a
acontecer mais tarde…
OctávioPontoAugusto
Abril 2019

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