Estávamos em 1975. O processo revolucionário era assim como
a corrente de um rio que, de tão intensa, transbordava pelas margens e tudo
inundava. Quase nem se ouvia falar de futebol. Era do país, das pessoas e dos
seus problemas, da revolução e da contra revolução que eram alimentadas as
conversas. Homens, mulheres, velhos e novos viveram intensa e apaixonadamente aquela
que foi uma das mais belas épocas da nossa história colectiva. No bairro do
Areal, onde nasci e cresci, o pessoal mais jovem passava o tempo nas “tílias” a
jogar à bola e os mais destemidos aventuravam-se, quando o tempo o permitia,
numa caminhada até à “lapa dos morcegos”, uma gruta que sempre despertou a
curiosidade da rapaziada e que motivava muitas estórias, umas verdadeiras,
outras nem por isso.
À noite e aos fins-de-semana, o Sporting de Alenquer era o
ponto de encontro. Matraquilhos, ping-pong, Bilhar e, em ocasiões especiais,
bailes e matinés…
Naquela altura o tema da conversa mudou radicalmente. Passou
a falar-se de política. As discordâncias deixaram de ser entre os que eram do
Sporting e os que eram do Benfica. Uns eram comunistas e os outros eram de tudo
um pouco.
Os que simpatizavam com o Partido eram mais numerosos. De
vez em quando lá íamos até ao CT que era um pouco longe. E lá, diga-se, havia
muito mais que fazer do que aturar um bando de putos.
Do grupo, o único que tinha ligação partidária era eu, que
estava organizado na célula da UEC da Escola Comercial e Industrial de Vila
Franca.
Um dia, estávamos a fazer não sei bem o quê no que restava –
e resta – das muralhas do castelo de Alenquer e resolvemos, pela enésima vez
abrir o ferrolho de uma minúscula casa que sempre despertou a nossa curiosidade
e onde, por vezes, jogávamos às cartas.
Lá dentro, tive uma ideia de se lhe tirar o chapéu: E se
abríssemos uma sede do PCP aqui?
Dito e feito.
Primeiro limpeza geral do interior. Aquilo estava um nojo.
Socorri-me da minha avó para os utensílios de limpeza. Após a limpeza,
realizámos a nossa “primeira reunião”. Era preciso mobilar o espaço. Quem
arranja as caixas de fruta? E os tijolos para fazer uma pequena estante?
Em pouco tempo tínhamos o material necessário. O “Papa-abelhas”
que tinha jeito para o desenho, ficou de pintar uma bandeira do PCP para
hastearmos na inauguração.
Eu fiquei com a tarefa de fazer uma exposição sobre A União Soviética.
Socorri-me da imensa documentação do meu avô. Livros, revistas, cartazes e, com
letra redondinha copiei alguns textos e fiz os títulos. Eram para aí umas dez
folhas de cartolina.
Estava tudo preparado. Faltava marcar o dia da inauguração.
Marcado o dia era preciso levar lá alguém para inaugurar a “Sede”. Fomos convidar
a Dona Maria Emília Dias (a camarada Maria Emília era uma militante comunista
de antes do 25 de Abril e que era muito conhecida no nosso bairro. Vivia com o
irmão, o Sr. António Dias que tinha uma sapataria e que era dos poucos que
tinha telefone. Pela sua disponibilidade, era para lá que toda a gente ligava a
dar recados ou a pedir para chamar um seu familiar ou vizinho. Mais tarde, já
funcionário da JCP, socorri-me dele imensas vezes para avisar a minha família
que não ia dormir a casa…).
A Camarada Maria Emília olhou para nós com um ar de espanto.
Uma sede do Partido no Castelo? E lá tivemos de responder a um imenso rol de
perguntas. Ficou convencida. Sem o sabermos, informou o funcionário do Partido
responsável pela Concelhia de Alenquer.
No dia da inauguração apareceu ela e o tal camarada.
Estávamos um pouco nervosos mas a coisa correu bem. Bandeira
hasteada. Exposição. Intervenção da camarada maria Emília.
Havia tremoços, pevides e amendoins. Das bebidas não me
lembro…
A notícia correu rápido. No Partido toda agente ficou
admirada com a iniciativa de um grupo de putos. Quem eram? Temos de os trazer
cá ao Centro de Trabalho…
O funcionário do Partido queria que outros camaradas vissem
a exposição.
O boato sempre foi uma arma da reacção.
Os que não eram “comunistas” lançaram o boato de que íamos para
lá fumar. O que não era verdade! Os pais de alguns “camaradas” proibiram-nos de
frequentar a “sede”… e alguém fechou a porta com um cadeado.
Muitos de nós passámos então a frequentar o Centro de Trabalho
onde, agora, já nos davam alguma atenção.
OctávioPontoAugusto
Novembro de 2019

Coisas de putos giríssimas! E assim se cresce na via da rno PCP!!!!
ResponderEliminarADOREI!
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